Os editores da Crisálida fizeram questão de colocar o nome de cada autor no convite do lançamento!...
Super gentil, mas são quase noventa autores! Trabalho de Hércules!! :)
De qualquer modo, estou feliz de ver a "cria" lá, no livro.
Vou ficar mais se puder ver vocês lá! Uau!! Pelo menos vou poder me esconder no meio de todos e enganar a timidez!! :)
Beijos!
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
A PORTA BRANCA
“O leito 33 se encontra em procedimento de rotina da UTI. É favor aguardar”.
Uma porta branca, pesada, protegida por crachás e seguranças me separava da minha mãe. “Procedimento de rotina”. Que rotina? Tinha terminado há pouco uma cirurgia de quase sete horas. Tocou o telefone do quarto, pulei da cadeira. “Está tudo bem”, disse o cirurgião. “Tiramos um nódulo do pâncreas, um pedaço do estômago, a vesícula e o duodeno. Ela está ótima, nenhuma intercorrência. Mas passou uma jamanta por cima dela. Vamos ver como se recupera.”
Minha mãe, viva, estava lá dentro da porta pesada. Olhei o relógio. 20h35. Procedimento de rotina. Quero entrar correndo, até o leito 33. Não posso. Passo os olhos em volta: ocos. Bolinhas brancas ocas no meio da testa. Tanta gente nessa porta de UTI. Recepcionistas vestidas socialmente, de saltinho. Toc toc. Enfermeiros, um ou outro, de azul. Médicos, jalecos brancos conversando com famílias: “Que seria da gente sem o senhor, doutor?” A mulher loira, de meia-idade, bem vestida, mostrava o celular aos parentes do marido: “Olha só que graça. Tão lindinha…” Burburinho branco – atonal. As vozes nem subiam nem desciam. Vozes de robôs. Ou seria eu o robô? Perto de um jovem, um senhor japonês, mudo, torcia as mãos. “Pai e filho”, pensei. “Provavelmente é a mãe que está lá dentro”. Mãe?
20h40, e o silêncio. Procedimento de rotina. Minha mãe. Olhei para o rosto do meu irmão, da irmã, da cunhada. Levantei da cadeira, e nada de chamarem. Devo ter baixado os olhos. Um deles me disse – qual deles? -, “Você quer que eu entre primeiro, Fabi, você não gosta dessas coisas…” “De jeito nenhum, nem pensar! Primeiro vou eu. Eu vou primeiro”. “Mas, e se você desmaiar lá dentro?” “Se desmaiar, desmaiei.”
Eu realmente detesto essas coisas: tenho aflição de agulha, as pernas bambeiam com sangue. Sofro muito com o sofrimento de quem quer que seja, e jamais seria médica ou algo assim: não aguento. Apesar disso, tinha aplicado injeções diárias de insulina nos braços e nas pernas da minha velhinha, por uma semana, sempre tentando pensar que estava picando um peito de frango. Se pensasse em qualquer tipo de dor, era desmaio na certa. Saía de casa às oito e meia, nove da noite, pegava o carro, estacionava, subia, beijava o rosto assustado, “Vamos lá, mãe?”, lavava as mãos religiosamente, procurava o algodão, desinfetava o local (“Onde você quer que eu aplique hoje?”), media a dose na caneta e… pimba: aplicava. Depois tinha de ir até a cozinha tomar um copo e meio de coca-cola com gelo - muito gelo -, para me recuperar do choque. Ela ia também, enchia um copo com água, misturava açúcar: “para o caso de ter uma hipo à noite”, dizia. E eu ia embora. “Boa noite”. Até o dia seguinte.
De repente, ela amarelou. Uma semana depois de ter ficado internada por três dias, com infecção urinária grave, uns cinco dias depois de começarem as aplicações de insulina. Era sábado, eu sentada ao lado dela no sofá. Olhou para o lado da janela – e o branco do olho azul estava cor de açafrão. Percebi então o rosto, as unhas – tudo amarelo. “Mãe, você amarelou! Dá pra perceber?” “Não…”, ela disse. “Mas é. Que será isso?” Icterícia, pensei. “Se não melhorar até amanhã, ligo pra sua médica, tá?” Ela, minha mãe, tinha horror a médicos, fugia dos remédios.
E a icterícia não melhorou… Vieram os exames - alteradíssimos. Liguei para a doutora. Suspeita de hepatite medicamentosa pelo antibiótico contra a infecção urinária. “Mas”, dizia a voz ao telefone, “vocês vão precisar ir ao pronto-socorro e fazer novos exames. As taxas dela são de uma obstrução, precisamos descartar essa hipótese”. Era noite de sexta-feira. Ela tinha resistido violentamente à internação no outro hospital, quase arrancando as sondas dos braços, dizendo ao enfermeiro frases atravessadas – minha cunhada me contou. Como é que eu ia conseguir tirá-la de casa outra vez, à noite, levar para o pronto-socorro? “Me dê um tempo, doutora”, eu disse. “Se ela tiver febre ou dor, prometo que a levo para o hospital ainda hoje. Se não, amanhã cedo vou com ela. Eu me responsabilizo”. E aí começou o meu drama, minha enorme interrogação: como tratar com delicadeza essas urgências? Proteger, ao mesmo tempo que cuidar? Apaziguar, e ao mesmo tempo socorrer? Salvar, sem alarmar. Quando esperar? Quando apressar?
Nove da noite. Quase nove. A porta ainda fechada. Que tempo era aquele, diante daquela porta? Estávamos, todos ali, suspensos do tempo.
Então, no dia seguinte, o pronto-atendimento, os exames de sangue, os exames de imagem. Na ultrassonografia do abdômen, a médica entrou, olhou, examinou, digitou e saiu, dizendo “a senhora aguarde um pouco, o laudo já fica pronto”. Nenhuma frase no estilo “está tudo bem, fique tranquila”. Eu, que entendo nada de nada, mas já fiz uns duzentos ultrassons, congelei dos pés à cabeça: à distância, me pareceu ver na tela uns nódulos que não deveriam estar lá. Mas me recompus, “Vamos, mãe?”. Já eram quatro da tarde, estávamos ali desde cedo. Ela só reclamava de fome.
Voltamos para o nosso pedacinho de PA: o leito, uma mesinha, uma cadeira. Comprei revistas, fui pegar café. Na sala da frente, uma senhora idosa, que tinha caído e quebrado alguma coisa – o ombro, o braço? – gritava, alucinadamente, “Socorro, me tirem daqui, querem me prender, querem me matar!” Ela tinha urinado no leito, o cheiro de urina picava as narinas. Respirei, o que pude respirar. Fiz um carinho na cabeça querida, disse “Tenha um pouco de paciência, mãe. Eles já devem vir com notícias”. “Quero ir para casa”, ela respondeu.
Algumas horas ainda se passaram. Do vidro da sala da enfermagem, que eu ia espiar de vez em quando, conseguia ver o médico de plantão, uma gentileza de criatura, olhando exames, respondendo aos enfermeiros, falando ao telefone. Já eram quase seis da tarde quando ele entrou no quartinho: “Saíram seus exames, D. Izabel, e parece que a icterícia não tem a ver com o antibiótico. A senhora vai precisar ficar internada e fazer uma tomografia. Liguei para o Dr. Carlos Eduardo, que sua médica indicou. Ele vai passar no quarto mais tarde e explicar melhor tudo. Agora, a senhora vai tomar um líquido de contraste e fazer a tomo às nove da noite.”
Difícil descrever a reação dela. Arregalou para ele os olhos mais azuis e mais desesperados, os ombros caídos. Disse “Não, doutor, não faça isso comigo. Eu vou para casa hoje, prometo que amanhã volto, bem cedo, e me interno, faço esse exame. Me deixe ir embora hoje. Eu não trouxe nada agora. Prometo que volto amanhã e faço tudo o que me mandarem…” O Dr. Fabio (esse era o nome dele, tenho de lembrar, é quase o meu – “o nome que você teria se fosse homem”, minha mãe sempre me disse) se condoeu da situação, tenho certeza que sim, e ainda tentou consolá-la, umas palavras de incentivo, um carinho no ombro. Mas, se era preciso internar, o que fazer? Choramos muito juntas, abraçadas. Justo ela, minha mãe que nunca chora. “Me leva pra casa, Fabi”, ela dizia. Eu encostei a cabeça dela no meu ombro: “To aqui, mãe. Vamos fazer esse exame, precisamos ver do que se trata… Vai ficar tudo bem…”
Avisei a todos, peguei os papéis da internação, subi as escadas. Assinei termos de responsabilidade. Fui com ela para o quarto. Tive medo. Desse ponto em diante, nem me lembro muito bem. Acho que alguém chegou - meu irmão? irmã? -, e que fui para casa dar um beijo no meu filho, pegar umas roupas? Fui eu quem dormiu lá nessa noite? Não sei mais… Só sei que, quando voltei, ela já tinha feito o exame, Dr. Carlos já tinha passado e estávamos, então, esperando o resultado da tomografia. Não era dia nem noite. Para mim, era apenas o quarto: só um espaço, fora do tempo.
Nem uma semana depois, olhávamos para uma porta branca que nunca se abria. Dr. Carlos passou – ele também, tão alto, de jaleco branco… -, disse algumas palavras, falou da cirurgia. “Tiraram o nódulo do pâncreas, desobstruíram a passagem da bile, reconstruíram o sistema digestivo. Vamos, agora, ver a recuperação… Ela está sedada e entubada, mas resistiu bem.”
O horário de visitas da UTI à noite, sabem?, terminava às nove horas. Já eram nove. Nove e cinco. Por que não nos deixavam entrar?
Foi então que eu ouvi, de longe, alguém dizer “Familiares de Maria Izabel Carelli. Podem retirar o crachá. Leito 33. Até o fim do corredor, à direita”. Minha cunhada, com o crachá na mão, tentava negociar comigo uma trégua nos meus deveres de filha: “Tem certeza de que você quer ir primeiro? Não quer que eu vá e te conte como está? Você não vai se sentir mal? Não vai desmaiar?” “Eu vou primeiro. Deixa. Eu vou”, respondi. “Eu preciso ver. Preciso.”
Como explicar tudo ali para ela? Eu tinha internado minha mãe. Eu tinha ouvido com ela pela primeira vez o diagnóstico de nódulo cirúrgico no pâncreas. Eu tinha conversado com o cirurgião sobre o procedimento: quando? como? onde? Eu tinha dormido com ela na noite anterior à operação. E, mais que tudo, eu tinha dito a ela, na porta do elevador para o centro cirúrgico, “Firme e forte, mãe, aguenta firme, a gente está aqui fora te esperando. Firme e forte”. Eu tinha prometido que estaria esperando por ela aqui fora. Eu precisava estar lá.
Peguei o crachá, coração aos pulos, e disparei porta adentro. “Lavar as mãos, lavar bem as mãos. Primeiro as palmas, depois as costas. Entre os dedos. Debaixo das unhas. Punhos.” Tentava organizar meu pensamento numa logística de UTI. “Agora, álcool gel. Cadê o álcool gel?” E andava, andava, dois corredores, um posto de enfermagem. Leito 33. Leito 33? Onde diabos? Passo disparado, coração disparado. Enfermeiros de azul. Pias. Alguns rostos. Curva à direita, novo posto de enfermagem. Leito 33. Parei. Uma UTI com quartos separados. Nunca tinha visto uma assim.
Da porta, meio aberta, vi minha mãe. Deitada, sedada, respirando pelo aparelho num compasso ritmado e lento. Cheguei perto, fiz um carinho naquela testa. “To aqui, mãe. To aqui. Falei que a gente ia estar te esperando. Estamos aqui. E você aguentou firme e forte…” Ela estava dormindo… Precisava, talvez, de um beijo de príncipe para acordar?
Fiquei mais dois ou três segundos. Ainda olhei para trás antes de ir, joguei um beijo da porta, os olhos cheios (sou chorona demais, problema sério, não há rímel à prova d’água que dê jeito). Minha velhinha estava ali, viva. Tinha aguentado firme.
Fui saindo depressa, de cabeça baixa. Na sala de espera, abracei minha cunhada chorando muito, aos soluços. Desabafei. Muito difícil ver uma criatura tão amada naquela situação. Nesse período todo, tenho me perguntado muitas vezes: como é que se consegue manter a serenidade diante do sofrimento de quem se ama? Como fazer para manter a calma? Porque serenidade é o de que mais se precisa - com os outros, com a gente mesmo…
Mas o que queria contar mesmo eu ainda não contei. Nos seis dias que passei entrando e saindo da porta branca da UTI, à tarde e à noite, eu vi muita coisa, mesmo desejando ver nada. Entrava e saía de cabeça baixa, escondendo os olhos, procurando respeitar a privacidade dos que estavam naquele lugar e dos seus acompanhantes, até mesmo de médicos e enfermeiros. Mas eu tinha de atravessar a UTI inteira para ver minha mãe, e o olhar às vezes escapava: uma porta entreaberta. Um médico de branco a conversar com o familiar de um doente. Um ruído de televisão. Pares de olhos me observando quando eu passava. Eram pessoas que estavam ali. Um homem seminu, peludo, com a camisola do hospital meio jogada e as pernas abertas, ouvindo o Jornal Nacional, que virava para mim uma raiva bruta, sexual, no olho preto. Um senhorzinho entubado e inconsciente, rodeado de pessoas numa baia de cortinas. Um jovem, quase o rapaz na bolha de plástico, com um “capacete de oxigênio” digno do Darth Vader – embora branco… Uma senhora com a acompanhante, conversando animadamente. Sinhás de tempos distantes, troncos de árvores cortadas, trogloditas pré-históricos, viajantes do espaço. Médicos e enfermeiros de azul. Minha mãe. E o tu-tuu, tu-tuu, tu-tuu dos monitores de batimentos cardíacos, numa sinfonia estranha, de ensurdecer.
Todos gente, viajando numa bolha surreal por trás da porta branca, descolados de espaço e de tempo. Vozes de metal. E os aparelhos, tantos aparelhos. Como sobreviver num lugar assim? Inferno? Paraíso?
Nos seis dias em que minha mãe esteve na UTI, não consegui dormir em nenhum. Tinha pesadelos terríveis, e tantas vezes me senti culpada por deixar que ela ficasse ali, sozinha, por detrás da porta branca, com muitas máquinas monitorando pressão, respiração, batimentos cardíacos e taxas sanguíneas, mas sem ninguém para segurar aquelas mãos. E se ela acordasse no meio da noite? E se tivesse medo? E, nessas horas, quis demais que tivessem me cortado e suturado, que tivessem tirado um pedaço do meu estômago e do meu pâncreas, que tudo aquilo tivesse acontecido comigo. Que sou, talvez, um pouco mais calma do que ela. Que converso, à noite (e semanalmente, no divã…), um pouco mais com os meus monstros, negociando com eles as nossas divergências. E que durmo, mergulhada e descabelada, no amor daqueles que, de carne e de osso, de perto e de longe, grandes e pequenos, velam meu sono (“Não fica triste, mãe. Vou te dar um carinho…”, diz o meu filho de três anos…). Amores que são raras gotas do divino dadas espontaneamente a mim, e por isso mesmo mais inteiras, mais intensas - mais vivas.
“Between heaven and earth”. Inferno, ou paraíso? Morte, ou vida? Depois de ultrapassada a porta branca, fronteira que nos separa a todos daquele universo singular, levava os dias a me perguntar como era possível que, em sã consciência, houvesse pessoas que escolhessem trabalhar ali. Atravessava a Paulista, já se vestindo de Natal, pensando no Dr. Carlos, o clínico da minha mãe. Ô, homem preocupado. Ligado. Ele não tem nada de insensível… No entanto, é médico de UTI… Naquele lugar estavam os seres humanos nas condições mais precárias que já avistei. E ele enfrentava, quase todos os dias, o troglodita, o astronauta, a senhora de engenho e tantos outros… Olhava e tocava a DOR… E saía vivo? São? Inteiro? (ou “só o pó”, como dizia às vezes…) Sem nem um copo de coca-cola com gelo – muito gelo -? “Jingle bells…”
Quem nunca viveu uma UTI não sabe o que ela significa. Eu também não sabia, até que me foi permitido entrar lá. Algumas vezes, no meio da tarde, atravessava os corredores alvos e, no quartinho com janela que era o leito 33 (sim, minha mãe tinha uma janela para a vida!), via de pé o Dr. Carlos, jaleco branco, conversando com ela… As máquinas continuavam lá – tu-tuu, tu-tuu, tu-tuu -, mas eu conseguia surpreender nela um esboço de sorriso, nele o despertar de uma piada, um gesto de carinho, um abraço. Eu dava um passo para trás, para não rasgar o véu da delicadeza… – e ele me via e me dizia “Não não não não, vem pra cá, fica com ela, vou deixar vocês…”.
Numa noite escura, as luzes do quartinho apagadas, já quase no final da visita, Dr. Paulo, o cirurgião, entrou por trás de mim pela portinha estreita, me deu um beijo no rosto – “Oi oi oi…” -, depois se postou ao lado do leito, beijou as mãos da minha velhinha, passou as mãos pelos cabelos dela, olhou fundo nos olhos azuis e perguntou: “Como a senhora está?” Era a véspera da alta da UTI. “Estou um pouco melhor, doutor”, ela respondeu. “Amanhã a senhora vai para o quarto”. Minha mãe abriu um sorriso, olhou para o Dr. Paulo de um jeito frágil (coisa rara, ela é fortona…) e disse: “o senhor sabe, passo os dias e noites aqui pensando no que vou fazer quando sair daqui. Porque, entende?, quero fazer algo de útil… Desde que eu me aposentei, vivi só para os filhos. E valeu a pena, sabe?, foi muito bom. Mas agora eles foram embora, e eu fiquei sem ter o que fazer. Tem os meus netos – eu ADORO os meus netos, todos! -, mas não tenho mais energia para ficar com eles… E aí penso em fazer um trabalho voluntário, cuidar de crianças carentes… Mas acho que não vou aguentar… Então, acho que vou escrever…”- e ela olhou para o médico com um sorriso -, “Eu sempre gostei de escrever, o senhor sabe? Vou escrever um conto sobre como é enfrentar uns dias na UTI…” Ela tinha acabado de passar por uma cirurgia enorme, e queria ser “útil”. E foi, durante esse tempo, a sensação da Terapia Intensiva: irônica, espirituosa, “ligada”, perceptiva. “A senhora é fogo, D. Izabel…”, dizia o Dr. Carlos, levantando os olhos para mim com aquela expressão de “quem é que pode com ela?”…
Nessa noite, saí do hospital com lágrimas nos olhos e, dirigindo sozinha pela Paulista afora, tive de ligar para o celular do Dr. Paulo. Agradecer a ele, não apenas pela competência, enorme, mas também pela leveza. Pela alegria (quem nunca ouviu o Dr. Paulo gargalhar não sabe o que é ser alegre sem afetação, e sem tampouco perder a seriedade fundamental de alguns momentos). E a resposta dele: “Aquela conversa de hoje foi tudo”.
Na tarde do dia seguinte, minha mãe saiu da UTI. Não pela porta branca: esta, quem atravessou naquele dia fui eu, como em todos os outros, deixando para trás, naquele momento, o Neanderthal do olho preto, o soldado intergalático, a senhora da sala de estar. A família oriental e a avó loura e jovem da sala de espera. Os saltinhos das recepcionistas. O famigerado crachá eletrônico. A sinfonia esquisita da ultramoderna aparelhagem médica. Inferno, ou paraíso? Sonho, ou pesadelo?
Acho que eu também tive alta naquele dia. Abduzida, fui cuspida de novo no mundo e, apesar de ter experimentado, por dias e noites intermináveis, todo o choro e ranger de dentes daquela bolha estranha, talvez tenha percebido ali algo que nem o troglodita, nem o astronauta, nem a senhora e sua “serviçal” tenham visto. Não os aparelhos. Nem a assepsia. Não a tecnologia, nem tampouco a (inegável, ainda bem!) eficiência.
Na mesma noite, dormindo no hospital e olhando a internet, encontrei na rede um artigo do Dr. Carlos – ele e o Dr. Paulo, como eu, também são professores doutores, chiquérrimos! (muito mais chiques do que eu, claro…) No artigo, a respeito da chamada “Medicina Baseada em Evidências” (pelo que entendi, uma espécie de “vejo e penso, logo existe e será tratado assim” da ciência médica), ele diz:
“A MBE extrai sua força persuasiva da idéia subjacente a toda matriz cultural da sociedade ocidental moderna: a de que a prática científica é o modelo de prática racional. Baseando-se nas evidências científicas, a MBE se torna a maneira mais racional de fazer medicina. Como afirma Cronje: ‘A idéia de ação racional existe porque achamos útil distinguir ações baseadas na razão de ações baseadas em emoções, impulsos ou escolhas aleatórias - racionalidade, então, é o que protege nossas ações da arbitrariedade, subjetividade, viés e erro.’”
Mas, ele continua,
“A hierarquização dos estudos, a quase aversão ao efeito placebo e as tentativas de quantificação do imponderável (experiências individuais dos pacientes, tipos de narrativas, impacto da doença na vida pessoal etc.) são facetas de uma racionalidade forçada ao limite que, ao exercer um papel para o qual não foi desenvolvida, geram tensão e ansiedade em ambos os lados da mesa do consultório.”
Ao ler isso, de olhos bem abertos, me lembrei do trecho do texto de Gruzinski de que tanto gosto:
“Prigogine, em Les Lois du chaos, cita Popper, que ‘fala de relógios e nuvens. A física clássica interessava-se antes de tudo pelos relógios; a física de hoje, mais pelas nuvens’. Ele explica que a precisão dos relógios continua a obcecar nosso pensamento, levando-nos a acreditar que se pode atingir a precisão dos modelos particulares, e praticamente únicos, estudados pela física clássica. Mas o que predomina na natureza e no nosso ambiente é a nuvem, forma desesperadamente complexa, imprecisa, mutável, flutuante, sempre em movimento.”
Não somos relógios, nem nuvens. Mas somos parte de uma natureza complexa, imprecisa, mutável, flutuante, sempre em movimento. Todo organismo funciona segundo um padrão. Toda doença tem um padrão. Mas padrões são generalizações, construídas pela ciência.
Para além da porta branca, eu não vi números. Vi histórias. Imponderáveis narrativas de época, de terror, de ficção científica, de comédia, de drama, com finais igualmente surpreendentes. Tratados com os mesmos aparelhos, quantificados sob os mesmos critérios, mas completamente diversos em sua constituição singular: a sinhá, o troglodita, o astronauta. Minha mãe.
Também únicos são os médicos que cuidaram dela, e que me fazem, hoje, rever um pouco a total descrença na ciência médica que desenvolvi ao longo dos anos. E não apenas porque são profissionais habilitados, competentes, sabedores do que fazem. Mas, principalmente, porque têm alguma noção de que são gente. Gente que cuida de gente.
Saí da porta branca mais dura, calejada, mas mais esperançosa. Não na medicina: nos médicos. Naqueles que acreditam numa humanização profunda de sua prática - porque, afinal, tratam pessoas. Dão nó em pingo d’água. Buscam “a fórmula do acaso”. São observadores de nuvens.
Depois de tudo o que passamos, depois do presente da vida, que desafia todas as ponderações, só me resta aqui registrar minha homenagem aos que “doeram” conosco essa história: filhos, familiares, companheiros, enfermeiros, amigos, funcionários. A senhorinha oriental que tinha o marido internado a dois quartos do nosso. A esposa solitária que cuidava do marido operado sem avisar ninguém. Os garçons do hospital: “bom dia, como a senhora está hoje?” E, a mais especial, a esses médicos maravilhosos e seu instrumento mais revolucionário. Eles têm coração. Between heaven and earth.
sábado, 19 de junho de 2010
CONTRA A CEGUEIRA, PELA LUCIDEZ
Publicado no Boletim CBL Informa, em 18/06/2010:
A MORTE DE JOSÉ SARAMAGO
“Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será. (...)
Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste.”
Morreu hoje, aos 87 anos, José Saramago, em Lanzarote, Ilhas Canárias, onde vivia com sua segunda mulher, Pilar Del Rio.
O homem que nunca foi à universidade, porque a família era pobre e não havia meios para isso.
O homem que, para sobreviver, fez um curso técnico e tornou-se serralheiro mecânico. No entanto, como tinha paixão pelas letras, passava suas noites na Biblioteca Municipal Central de Lisboa.
O homem chamado coragem nasceu em 1922 em Azinhaga, no Ribatejo, Portugal de uma família de pais e avós pobres.
O homem que foi funcionário público em Portugal, por décadas. Aos 30 anos começou a fazer traduções, para aumentar sua renda de operário. Auto didata, traduziu Baudelaire, Hegel e Tolstoi, entre outros clássicos.
O homem que publicou seu primeiro romance, Terras do Pecado, em 1947, mas só foi reconhecido como um verdadeiro escritor a partir da década de 1980, quando lançou o romance Levantado do Chão.
Depois disso, seus sucessos literários se sucederam com Memorial do convento (1982), O ano da morte de Ricardo Reis (1984), A jangada de pedra, (1986) História do cerco de Lisboa (1989) O Evangelho segundo Jesus Cristo, (1991) e Ensaio sobre a cegueira (1995) com o qual ganhou o Prémio Nobel da literatura em 1998.
Único ganhador de um Prêmio Nobel em língua portuguesa, José Saramago ajudou, com isso, a estimular as vendas de livros e a aumentar o respeito por quem escreve em português.
O homem que, com esse sucesso, fez com que vários outros autores nacionais e da comunidade de língua portuguêsa fossem descobertos e também lidos, o que estimulou os mercados de livros na nossa língua.
O homem que nunca escondeu suas ideias, brigou por elas, deixou muito claras suas posições, sem medo de críticas.
“Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma maneira bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratularmo-nos ou para pedir perdão, aliás, há quem diga que é isto a imortalidade de que tanto se fala”.
Autor versátil, ele deixou 20 romances, 3 livros de contos, 5 peças de teatro, 4 livros de crônicas, 3 livros de poesias e um de viagem. Os números, frios, nunca vão explicar a emoção da qual era carregada sua literatura, que fez chorar e rir, que espantou e acalmou, que fez pensar, enfim. “Escrevo para desassogar os meus leitores” disse Saramago em 2009.
"Sou um leitor de Saramago desde a minha adolescência. Conheço muito bem a obra dele e foi o escritor que mais me tocou até hoje", revelou. João Tordo, ganhador do Prêmio José Saramago 2009 (com o romance “As Três Vidas” Portugal). Para Tordo, Saramago foi “Um escritor que revolucionou a literatura portuguesa: há um antes e um depois de Saramago. Ele inventou um modo de escrever."
O homem que se tornou, antes e por esforço próprio, jornalista, a partir do final de década de 1960. E que trabalhou intensamente na imprensa, no Diário de Notícias, Diário de Lisboa, em A Capital e no Jornal do Fundão, todos portugueses.
Em 1975 foi, por alguns meses, diretor-adjunto do "Diário de Notícias". Essa função foi o ponto alto do seu percurso jornalístico e seria fundamental para o seu regresso à literatura e ao romance.. Demitido, decidiu que transformaria a sua vida: seria um escritor em tempo integral.
Ele só seria reconhecido como tal três décadas depois de “Terras do Pecado”. Por essa época (1977) surgiu a primeira obra do Saramago exclusivamente escritor: Manual de Pintura e Caligrafia
O homem que falava da morte como fim único, pois era ateu. Mas falava da morte sem temor.
“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais”.
O homem que escreveu em seu blog, ainda na semana passada: “Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro”.
"Escritor de projecção mundial, justamente galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, José Saramago será sempre uma figura de referência da nossa cultura. Em nome dos Portugueses e em meu nome pessoal, presto homenagem à memória de José Saramago, cuja vasta obra literária deve ser lida e conhecida pelas gerações futuras. À Família do escritor, endereço as minhas mais sentidas condolências", lê-se numa nota publicada no site da Presidência da República de Portugual, Cavaco Silva.
Morreu José Saramago. Foi ele mesmo quem disse: “Há coisas que nunca se poderão explicar por palavras.”
Obras Publicadas
Poesias
Os poemas possíveis, 1966
Provavelmente alegria, 1970
O ano de 1993, 1975
Crônicas
Deste mundo e do outro, 1971
A bagagem do viajante, 1973
As opiniões que o DL teve, 1974
Os apontamentos, 1976
Viagens
Viagem a Portugal, 1981
Teatro
A noite, 1979
Que farei com este livro?, 1980
A segunda vida de Francisco de Assis, 1987
In Nomine Dei, 1993
Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, 2005
Contos
Objecto quase, 1978
Poética dos cinco sentidos - O ouvido, 1979
O conto da ilha desconhecida, 1997
Romance
Terra do pecado, 1947
Manual de pintura e caligrafia, 1977
Levantado do chão, 1980
Memorial do convento, 1982
O ano da morte de Ricardo Reis, 1984
A jangada de pedra, 1986
História do cerco de Lisboa, 1989
O Evangelho segundo Jesus Cristo, 1991
Ensaio sobre a cegueira, 1995
A bagagem do viajante, 1996
Cadernos de Lanzarote, 1997
Todos os nomes, 1997
A caverna, 2001
O homem duplicado, 2002
Ensaio sobre a lucidez, 2004
As intermitências da morte, 2005
As pequenas memórias, 2006
A Viagem do Elefante, 2008
O Caderno, 2009
Caim, 2009
A MORTE DE JOSÉ SARAMAGO
“Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será. (...)
Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste.”
Morreu hoje, aos 87 anos, José Saramago, em Lanzarote, Ilhas Canárias, onde vivia com sua segunda mulher, Pilar Del Rio.
O homem que nunca foi à universidade, porque a família era pobre e não havia meios para isso.
O homem que, para sobreviver, fez um curso técnico e tornou-se serralheiro mecânico. No entanto, como tinha paixão pelas letras, passava suas noites na Biblioteca Municipal Central de Lisboa.
O homem chamado coragem nasceu em 1922 em Azinhaga, no Ribatejo, Portugal de uma família de pais e avós pobres.
O homem que foi funcionário público em Portugal, por décadas. Aos 30 anos começou a fazer traduções, para aumentar sua renda de operário. Auto didata, traduziu Baudelaire, Hegel e Tolstoi, entre outros clássicos.
O homem que publicou seu primeiro romance, Terras do Pecado, em 1947, mas só foi reconhecido como um verdadeiro escritor a partir da década de 1980, quando lançou o romance Levantado do Chão.
Depois disso, seus sucessos literários se sucederam com Memorial do convento (1982), O ano da morte de Ricardo Reis (1984), A jangada de pedra, (1986) História do cerco de Lisboa (1989) O Evangelho segundo Jesus Cristo, (1991) e Ensaio sobre a cegueira (1995) com o qual ganhou o Prémio Nobel da literatura em 1998.
Único ganhador de um Prêmio Nobel em língua portuguesa, José Saramago ajudou, com isso, a estimular as vendas de livros e a aumentar o respeito por quem escreve em português.
O homem que, com esse sucesso, fez com que vários outros autores nacionais e da comunidade de língua portuguêsa fossem descobertos e também lidos, o que estimulou os mercados de livros na nossa língua.
O homem que nunca escondeu suas ideias, brigou por elas, deixou muito claras suas posições, sem medo de críticas.
“Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma maneira bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratularmo-nos ou para pedir perdão, aliás, há quem diga que é isto a imortalidade de que tanto se fala”.
Autor versátil, ele deixou 20 romances, 3 livros de contos, 5 peças de teatro, 4 livros de crônicas, 3 livros de poesias e um de viagem. Os números, frios, nunca vão explicar a emoção da qual era carregada sua literatura, que fez chorar e rir, que espantou e acalmou, que fez pensar, enfim. “Escrevo para desassogar os meus leitores” disse Saramago em 2009.
"Sou um leitor de Saramago desde a minha adolescência. Conheço muito bem a obra dele e foi o escritor que mais me tocou até hoje", revelou. João Tordo, ganhador do Prêmio José Saramago 2009 (com o romance “As Três Vidas” Portugal). Para Tordo, Saramago foi “Um escritor que revolucionou a literatura portuguesa: há um antes e um depois de Saramago. Ele inventou um modo de escrever."
O homem que se tornou, antes e por esforço próprio, jornalista, a partir do final de década de 1960. E que trabalhou intensamente na imprensa, no Diário de Notícias, Diário de Lisboa, em A Capital e no Jornal do Fundão, todos portugueses.
Em 1975 foi, por alguns meses, diretor-adjunto do "Diário de Notícias". Essa função foi o ponto alto do seu percurso jornalístico e seria fundamental para o seu regresso à literatura e ao romance.. Demitido, decidiu que transformaria a sua vida: seria um escritor em tempo integral.
Ele só seria reconhecido como tal três décadas depois de “Terras do Pecado”. Por essa época (1977) surgiu a primeira obra do Saramago exclusivamente escritor: Manual de Pintura e Caligrafia
O homem que falava da morte como fim único, pois era ateu. Mas falava da morte sem temor.
“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais”.
O homem que escreveu em seu blog, ainda na semana passada: “Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro”.
"Escritor de projecção mundial, justamente galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, José Saramago será sempre uma figura de referência da nossa cultura. Em nome dos Portugueses e em meu nome pessoal, presto homenagem à memória de José Saramago, cuja vasta obra literária deve ser lida e conhecida pelas gerações futuras. À Família do escritor, endereço as minhas mais sentidas condolências", lê-se numa nota publicada no site da Presidência da República de Portugual, Cavaco Silva.
Morreu José Saramago. Foi ele mesmo quem disse: “Há coisas que nunca se poderão explicar por palavras.”
Obras Publicadas
Poesias
Os poemas possíveis, 1966
Provavelmente alegria, 1970
O ano de 1993, 1975
Crônicas
Deste mundo e do outro, 1971
A bagagem do viajante, 1973
As opiniões que o DL teve, 1974
Os apontamentos, 1976
Viagens
Viagem a Portugal, 1981
Teatro
A noite, 1979
Que farei com este livro?, 1980
A segunda vida de Francisco de Assis, 1987
In Nomine Dei, 1993
Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, 2005
Contos
Objecto quase, 1978
Poética dos cinco sentidos - O ouvido, 1979
O conto da ilha desconhecida, 1997
Romance
Terra do pecado, 1947
Manual de pintura e caligrafia, 1977
Levantado do chão, 1980
Memorial do convento, 1982
O ano da morte de Ricardo Reis, 1984
A jangada de pedra, 1986
História do cerco de Lisboa, 1989
O Evangelho segundo Jesus Cristo, 1991
Ensaio sobre a cegueira, 1995
A bagagem do viajante, 1996
Cadernos de Lanzarote, 1997
Todos os nomes, 1997
A caverna, 2001
O homem duplicado, 2002
Ensaio sobre a lucidez, 2004
As intermitências da morte, 2005
As pequenas memórias, 2006
A Viagem do Elefante, 2008
O Caderno, 2009
Caim, 2009
sexta-feira, 18 de junho de 2010
UMA "ALMA IMORAL"
Em http://www.josesaramago.org/:
Hoje é dia de luto. Calou-se uma das vozes mais ácidas e dissonantes de nosso tempo.
(Ele era uma das minhas enormes paixões.)
E agora, José?
"Hoje, sexta-feira, 18 de Junho, José Saramago faleceu às 12.30 horas na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença.
O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila."
Hoje é dia de luto. Calou-se uma das vozes mais ácidas e dissonantes de nosso tempo.
(Ele era uma das minhas enormes paixões.)
E agora, José?
quinta-feira, 27 de maio de 2010
CINEMA TRANS-FORMAÇÃO
Em agosto do ano passado, quando fui escalada novamente para ministrar Introdução aos Estudos Comparados IV em minha Universidade, quis fazer um pouco como aquelas mulheres que mandam seus perfis para as revistas femininas, buscando um “ANTES” e um “DEPOIS”. Já viram como fica? Cabelos vermelhos, cortes assimétricos, novo guarda-roupa... Mudança radical! (rsrsrs...)
Brincadeiras à parte, venho ministrando Estudos Comparados IV na Graduação de Letras desde que entrei na USP, por pura afinidade: na nossa grade, essa é a disciplina que aprofunda o estudo da narrativa em língua portuguesa – minha “menina dos olhos”, minha área de pesquisa também. Então...
Mas, dessa vez, queria ousar. Já tinha inovado bastante ao propor, dentro da Pós-Graduação, um curso comparativo entre Literatura e Cinema, não analisando produções literárias adaptadas para a Sétima Arte, mas buscando ver o próprio cinema enquanto narrativa. Afinal, analiticamente falando, muito da Film Theory nasce da Teoria Literária. Artes irmãs, mas com enorme diferença de idade.
Pois bem: montei então, dessa vez para a graduação, um programa de curso em Literatura e Cinema, tendo como norte a escolha de filmes em língua portuguesa (ou crioula, brasileiros e dos países africanos que falam português) que privilegiassem, em seu escopo temático e estrutural, a produção (eu disse produção) de identidades nacionais. Afinal: como Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau se imaginam como nações através do cinema?
O semestre foi passando, o grupo de alunos era maravilhoso, interessado, e o que era para ser um curso analítico foi mudando de figura. Líamos textos teóricos, sim: Antonio Candido, Benedict Anderson, Benjamin Abdala Jr., Robert Stam, Alfredo Bosi... Vimos muitos filmes, sim: O descobrimento do Brasil, Olhar estrangeiro, Vidas secas, Terra em transe, Na cidade vazia, O herói... Mas, até aí, apenas um corte de cabelo usual, sem grandes mudanças...
A grande transformação veio depois. Numa manhã de outubro, por razões que eu demoraria demais para explicar aqui, cheguei à faculdade com a minha câmera digital em mãos e fiz a minha aluna Marina Félix um pedido inusitado: “Você pode me filmar dando aula, Marina?” “Claro, professora”, ela me respondeu. “Mas o que a senhora quer que eu filme?” “Não sei, Marina”, eu disse. “Filme o que quiser”.
E Marina filmou a aula - uns cinco, seis minutos de gravação, acho. Tentando não ficar como uma câmera fixa em mim, buscando o que estava projetado na parede, passeando entre os colegas, focalizando o texto que tinha em mãos. No final, perguntei: "E aí, Marina, como foi?" "O mais difícil, professora", disse ela, "foi decidir o que filmar". "Que bom", repliquei. "Essa é justamente a sensação que um cineasta deve ter ao fazer seu filme: possuir um tema, sim, mas precisar sempre decidir o melhor recorte".
Naquele dia, começou o inferno dos meus pobres alunos, coitados. Porque foi só encostar a cabeça no travesseiro à noite e a ideia (não o rio São Francisco, como em Rosa) dividiu a vida deles em duas partes... "Vou pedir a eles uma avaliação completamente diferente", pensei. "Em vez de me entregarem uma monografia analítica escrita, vão ter de roteirizar, filmar, editar e finalizar um curta-metragem que responda à pergunta: O que é a nação?..."
Se você já foi aluno um dia, caro leitor, deve imaginar a cara de cada um quando comuniquei às duas turmas a minha decisão. Meus alunos piraram. Piraram - e fizeram os trabalhos mais maravilhosos que se poderia imaginar. Criativos, dinâmicos, líricos, engraçados, assustadores, trágicos. Amadores, sim, mas deles: profundos, ponderados, reflexivos. Tive a oportunidade de aplaudir de pé, com lágrimas nos olhos, a exibição coletiva desses vídeos durante a I Mostra de Cinema de Língua Portuguesa de nossa Faculdade. Agora, é com muito orgulho que apresento a vocês esses "cineastas" maravilhosos e suas câmeras de video. Assistam aos filmes, curtam, apreciem, critiquem e aplaudam também. Eles merecem.
Curtas-metragens postados no YouTube e Vimeo:
Nação Brasil, possível diálogo inter-artes, de Edimara Lisboa:
alumBRamento, de Agda de Morais:
À brasileira, de Rogério Ribeiro e Janaína Gonçalves:
Rosas paulistanas, de Cláudia Regina Chaves de Almeida Farabello:
Nação, quem somos?, de Margarida Yamamoto e Eiko Yamagami:
http://vimeo.com/8585173
http://vimeo.com/8585173
São Paulo, um passo do Brasil, de Marina Félix Chaves:
quarta-feira, 26 de maio de 2010
UMA SUPER ALEGRIA!
Oi, gente!
Ando meio sumida, fazendo mil coisas, mas quero compartilhar com vocês uma grande felicidade: meu poema "Amichai Sheli", que postei no dia 16 de abril, foi selecionado para integrar a antologia O segredo da crisálida, livro a ser lançado em agosto próximo pela Editora Andross!
Para mim, é uma emoção muito grande. "Amichai Sheli" foi o primeiro texto poético que escrevi depois de anos de silêncio em verso e, embora seja já um texto da maturidade, ele grita. Reclama de dor, de solidão, de perda. E, de modo simples e calado, fala também de uma semente.
Beijos a todos!! Bom dia!!! :)
terça-feira, 27 de abril de 2010
CHICA CARELLI E SUAS "ÁFRICAS"
Ela era apenas um retrato na parede. Na casa de campo de meu tio: moça, traços delicados, cabelos longos. Francisca. A filha mais nova do Antônio, primo homônimo de meu pai, ambos Carelli. O pai de Francisca, pintor.
Nunca a tinha visto fora do retrato – e das histórias. Que tinha morado por alguns meses com a avó, D. Lourdes, quando criança. Contava o que – nove, dez anos? Que tinha ido à Bahia, fazer Faculdade, e de lá nunca mais voltara. Que tinha se rendido ao teatro. E depois, com o passar dos anos, que ajudara a criar o Bando de Teatro Olodum. Lázaro Ramos falando dela na televisão, ou ela falando dele, pois ele começara a carreira ali, no mesmo palco de Salvador, sob a tutela da mesma Francisca. Ou melhor: nessa altura, ela já era a Chica – Chiquinha Carelli, como ele a chamou.
No sábado, 17, a moça de cabelos longos passou por mim como um pé de vento. Já não assim tão moça. Os cabelos curtos, meio grisalhos. Pequena mulher. Gestos amplos!... Passou, levantando poeira, casaco preto aberto, esvoaçante, e sumiu pela porta de vidro do SESC Vila Mariana rumo à rua. “É ela”, minha mãe disse, alvoroçada, “a Chiquinha!! Vamos lá falar com ela!”. “Eu não”, retruquei, toda tímida, “vamos esperar o resto da família chegar... Eles vão vir, com certeza!” E eles, é claro, vieram.
Costumo dizer que, onde tem um Carelli fazendo alguma coisa, os outros estão sempre lá, para prestigiar. Esse sempre foi o tipo de senso familiar admirável cultivado pela família de meu pai. Mas encontrar Chica Carelli nos bastidores do SESC naquela tarde de sábado, assistir ao trabalho de Chica naquele palco, foi muito mais que uma descoberta, digamos, “genealógica”.
Áfricas (2007) é uma das peças mais recentes do Bando de Teatro Olodum e a primeira dedicada “ao público infanto-juvenil”. Mas, como diz Lázaro Ramos – de novo ele – no vídeo indicado no link abaixo, é algo que os adultos também precisam ver. Porque, como está no programa da peça, ela “traz à cena o continente africano, através da sua história, seu povo, seus mitos e religiosidade, abordando o universo mítico africano em uma tentativa de suprir a escassez de referenciais africanos no imaginário infantil, povoado de fábulas e personagens eurocêntricos”. O enredo é simples: à beira do porto, em Salvador, um grupo de adolescentes se reúne para contar “histórias” da África. Simples, mas riquíssimo: o resultado é simplesmente um ESPETÁCULO! Texto de Chica Carelli e do Bando de Teatro Olodum, a partir de leituras, seminário, discussões. Direção? Chica Carelli.
Em tempos de Lei 10.639/2003, isso não é pouco (e quem trabalha com África sabe bem do que estou falando...). O desconhecimento desse universo é gigantesco! e permeado de muito preconceito, de muito pressuposto, pretensão, pretexto, prejuízo, prevaricação, etc. etc. (me lembro do dia em que eu fazia uma conferência para 400 professores de todo o Brasil em Campinas, há dois anos, falando da obrigatoriedade de se falar em África instituída pela tal lei “supracitada” (rss): ninguém tinha ideia alguma de como conseguir os textos, de como aprender o que tinha de ser... ensinado!).
Mas Áfricas ainda é muito mais. A peça de Chica traz aos palcos uma perfeita mestiçagem de formas, em que histórias da mitologia africana são contadas com um sotaque muito brasileiro, uma brejeirice típica do lado de cá do Atlântico e uma malandragem... baiana, “nacional”. Os atores também encarnam isso: eles não fazem o tipo dos africanos (vou generalizar, mas vá lá: altos, esguios, um tom mais escuro de pele, um jeito mais formal de se portar, vestir e falar): são fortes, coloridos, produzidos, alegres – tipicamente... brasileiros! Áfricas é simplesmente macunaímico: uma rapsódia de lendas, formas e culturas, uma mistura de oralidades e escritas, apimentadas com um bom-humor próprio da brasilidade. É, pessoal: “a gente não vê isso todo dia”! :)
Ao mesmo tempo, a cenografia e a própria dramaturgia de Áfricas trazem à tona, sim, algo do continente africano, um pouco indefinível, mas que me remete a algumas das produções cinematográficas recentes da África de Língua Portuguesa. A marginalidade da infância em Na cidade vazia (2004), da cineasta angolana Maria João Ganga, mas sem sua tristeza. O colorido esfuziante e musical de Nha Fala (2002), do guineense Flora Gomes, mas sem sua ingenuidade política.
E, para mim que estudei tanto a oralidade, Áfricas traz dois achados que considero joias sem preço. O primeiro é uma espécie de piada, um chiste, mas com grande profundidade conceitual. Às tantas da peça, uma das personagens anuncia o griot, narrador tradicional africano, fazendo alarde: que as histórias dele são magníficas, maravilhosas, monumentais, mas que ele mente, mente muito, que já não se pode mais controlar suas mentiras, e que então, finalmente, maravilhosamente, incrivelmente, ele irá abrir a boca e FALARRRRRR!!.... O griot pula para a frente do palco, abre bem a boca e.... ELE É MUDO!!! E começa uma dança cheia de gestos, tentando contar o que quer contar, mas tudo o que tenta dizer tem de ser sempre interpretado... por seus ouvintes! Isso mostra o quanto a peça de Chica, apesar de reivindicar o espaço devido à cultura africana tradicional, não tem nada de inocente, pelo contrário: de um jeito cheio de alegria – porque rimos muito com esse griot mudo –, ela mostra que o retorno integral às tradições é impossível e que seu resgate só pode ser feito assim mesmo: pelas interpretações que fazemos delas. Em Áfricas, esse é o traço de contemporaneidade crítica: o risco que a peça desenha no presente.
O segundo achado tem a ver com a magia do teatro, que opera, ao recriar no palco a cena primordial da roda de histórias, uma viagem no tempo. Não vivemos mais a época dos griots. Mesmo nos países africanos de hoje, a arte de contar histórias oralmente sobrevive mais como ruína, incertos fragmentos de uma prática social que foi se perdendo com o impacto da colonização. Ela ainda respira em pequenos gestos cotidianos e no resgate literário dessa prática que empreendem escritores como Luandino Vieira e Mia Couto (aqui, falo apenas do que melhor conheço: a África de Língua Portuguesa). Pois é aí que entra Áfricas: a possibilidade da encenação teatral do contar histórias, com contadores, ouvintes e narrativas, míticas e mágicas, que falam do cerne da vida, materializa, no presente da encenação, o gesto tribal da fala de que trata Paul Zumthor. Somos jogados no meio da tribo. Não mais aquela, perdida na noite dos tempos – mas uma tribo moderna, mestiça, colorida: brasileira. Áfricas é, assim, também uma máquina do tempo: riscando o chão de práticas antigas, jogando-as no plano de uma atemporalidade crítica, atual, atuante. Com isso, a peça consegue o que parece impossível: ela nos presenteia com o coração da África, muito mais do que com suas histórias.
Já no final do espetáculo, uma das personagens conta que, estando os deuses do panteão Iorubá reunidos numa grande festa, Omolu permanecia calado e incógnito a um canto. Isso porque ele era considerado – e considerava-se – muito feio, cheio de feridas e digno de desprezo. Inconformada, Iansã convidou-o para dançar. Ela girou e girou, tão rápido que as vestes e as feridas de Omolu voaram pelos ares, transformando-se em pipoca. E ele se revelou um homem belíssimo. “Assim é com a cultura africana”, conclui a personagem. “Durante séculos considerada feia e desprezível, de repente vem a Arte e, como Iansã, varre essas feridas e as transforma... em PIPOCA!” Esse brado arrancou lágrimas da platéia e muitos minutos de aplausos em pé, revelando, em Áfricas, um tipo de ação política saudável e necessária que, de tão mal empregada, hoje está (infelizmente) fora de moda.
Só tenho, só temos a agradecer a Chica por essa beleza, por esse presente. A ela e ao seu “Bando”. E me desculpo muito, com ela e com os leitores, por ter demorado tanto em escrever este texto. Mas a emoção foi muita.
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