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ESCRITORES DE CARNE E OSSO
Toda história tem um começo. A deste blog também.
Meu aluno Júlio Bomfim, que esteve no lançamento de Escrito nas estrelas (leia mais sobre o livro abaixo), fez um comentário, dias depois do evento, que achei fundamental. Ele disse: “Sabe, professora (ele sempre me chama de professora, quando me chama pelo nome eu até estranho...): o que a senhora fez, no caso de Escrito nas estrelas, foi algo importante e responsável...”
Fiquei curiosa. Eu em geral sou responsável! (pelo menos me considero assim...). Que teria eu feito de MAIS responsável?...
Ele continuou: “Geralmente, os que escrevem livros para outros, ou transformam em livro as ideias de outros, ficam escondidos, não podem aparecer. A senhora rasgou o véu do ghostwriter: colocou seu nome na capa do livro, deu autógrafos no lançamento – e isso é uma atitude não apenas pioneira, mas também inovadora, porque valoriza o trabalho daqueles que escrevem, que possuem o conhecimento e a técnica necessários para isso, mas quase nunca obtêm reconhecimento público, nem tampouco são valorizados pelo mercado editorial.”
O Júlio tem toda a razão. Não que eu tenha combinado, com o grupo de trabalho de Escrito nas estrelas e com nossa Editora, a Rocco, que meu nome apareceria como o da pessoa que tinha escrito o livro a partir do enorme conhecimento de Horácio Tackanoo por uma questão de vaidade, por querer ser revolucionária ou algo assim. Quem me conhece sabe que, em geral, fico mais escondida do que exposta – às vezes, mais do que deveria.
Mas havia uma espécie de “justiça” que eu considerava necessária nessa minha atitude. Em todos os meus anos de experiência na área de Letras, eu vi (e senti, na pele) todo o desconhecimento que a sociedade tem a respeito de um profissional sem o qual a própria sociedade entraria em colapso – o profissional da palavra. E, consequentemente, toda a desvalorização que esse profissional enfrenta em seu trabalho, as dificuldades em encontrar um lugar ao sol, os baixos salários, etc., etc. Sem uma BOA comunicação (adequada, bem-feita, clara, precisa e, por que não dizer, esteticamente trabalhada), a sociedade se sustenta?
Quando ousei assinar o texto de Escrito nas estrelas (e a palavra é essa mesma, ousei, com nome na capa e tudo mais), quis apenas “dar a César o que é de César”: que o leitor do livro pudesse dizer “que conhecimento maravilhoso, que sabedoria infindável, que riqueza de caminho!”, sabendo que tudo isso é do Horácio, e não meu – não sou astróloga, nem posso assumir como minha a trajetória pessoal instigante e a enorme experiência védica desse homem... Mas que, quando pensasse: “que texto bacana, que livro bem escrito, que linguagem acessível”, esse leitor soubesse que isso, sim, é meu, fruto da minha experiência, do meu trabalho e da minha paixão de vida pelos livros e pela linguagem.
Apesar da “aura” quase mística que cerca os autores de livros, escrever, como diria o grande Graciliano Ramos, “é 10% inspiração e 90% transpiração”... Há muitas pessoas pelo mundo com grandes e inovadoras ideias e com conhecimentos vastíssimos, mas que não saberiam como (bem) transformá-las num objeto organizado, adequado, legível, interessante, vendável e estético como é um livro. E não há nada de errado nisso! Não dá para ser bom em tudo!
Dando forma a esses pensamentos, nós, escritores, estamos contribuindo no sentido de torná-los, enfim, públicos – e da melhor maneira possível: com técnica, com profissionalismo, com paixão.
Isso é que é responsabilidade! (como diria o Júlio...). Responsabilidade de gente. De carne e osso.
Conhecem a citação abaixo, do Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago? Conhecem o Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago?
(Depois da cegueira, do encarceramento, dos estupros, dos assassínios...)
"Só Deus nos vê, disse a mulher do primeiro cego, que, apesar dos desenganos e das contrariedades, mantém firme a crença de que Deus não é cego, ao que a mulher do médico respondeu, Nem mesmo ele, o céu está tapado, só eu posso ver-vos, Estou feia, perguntou a rapariga dos óculos escuros, Estás magra e suja, feia nunca o serás, E eu, perguntou a mulher do primeiro cego, Suja e magra como ela, não tão bonita, mas mais do que eu, Tu és bonita, disse a rapariga dos óculos escuros, Como podes sabê-lo, se nunca me viste, Sonhei duas vezes contigo, Quando, A segunda foi esta noite, Estavas a sonhar com a casa porque te sentias segura e tranquila, é natural, depois de tudo por que passámos, no teu sonho eu era a casa, e como, para ver-me, precisavas de pôr-me uma cara, inventaste-a, Eu também te vejo bonita, e nunca sonhei contigo, disse a mulher do primeiro cego, O que só vem demonstrar que a cegueira é a providência dos feios, Tu não és feia, Não, de facto não o sou, mas a idade, Quantos anos tens, perguntou a rapariga dos óculos escuros, Vou-me chegando aos cinquenta, Como a minha mãe, E ela, Ela, quê, Continua a ser bonita, Já foi mais, É o que acontece a todos nós, sempre fomos mais alguma vez, Tu nunca foste tanto, disse a mulher do primeiro cego. As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos, às vezes são os nervos que não podem aguentar mais, suportaram muito, suportaram tudo, era como se levassem uma armadura, diz-se A mulher do médico tem nervos de aço, e afinal a mulher do médico está desfeita em lágrimas por obra de um pronome pessoal, de um advérbio, de um verbo, de um adjectivo, meras categorias gramaticais, meros designativos, como o são igualmente as duas mulheres mais, as outras, pronomes indefinidos, também eles chorosos, que se abraçam à da oração completa, três graças nuas sob a chuva que cai."
Perguntei ao Karl por estes dias se seria possível postar um comentário no Ecce Medicus incluindo uma foto. Ainda não sabemos a resposta, mas meu comentário sobre esse post ("Abortamentos e cesarianas") parte de uma imagem... Além disso, hoje é o dia mais adequado pra falar do assunto - vocês já vão entender -, então resolvi começar por aqui mesmo, depois a gente põe lá no EM, se der... :)
Então. A foto é esta:
É: a barriga é minha, e é meu filho nascendo. De cesariana. Disse que hoje talvez seja o melhor dia para falar dela porque hoje essa cesariana completa 4 anos. Melhor: meu filhote faz 4 anos hoje. Talvez seja a melhor coisa que eu tenha feito na vida, esse meu filho. Nada tão perfeito, nem tão querido :)
Na semana passada, quando vi o post no EM, tomei de cara um sustão com a foto de abertura. Parecia eu, parecia meu filho! Por uma fração de segundo pensei: "será?" Claro que não era, mas se o fotógrafo tivesse conseguido pegar o rostinho dele sem a mão do médico... podia ser.
E aí, lendo o post e tudo, tive um insight na sobreposição dessas imagens. São praticamente idênticas. Não as imagens. São idênticos os protocolos de nascimento que regem uma cesariana. Processos muito mais parecidos entre si do que o buraco negro de expectativas e acontecimentos de cada parto natural (hoje não se fala mais "parto normal", né?). Numa cesárea, o médico, que já tem "todos" os exames em mãos, sabe quase "exatamente" tudo o que vai acontecer. Ou pelo menos tem bem mais controle sobre o processo. O risco de ansiedade médica diminui muito. Em alguns casos, o risco de ansiedade da mãe também. E talvez um esteja ligado ao outro. Não será?
Acho que a minha cesárea foi decidida muito por causa disso. Meu filho estava encaixadinho, desde o 7o mês. Mas era enorme, eu sou pequena. Me deixaram de repouso em casa - risco de parto prematuro, disseram... E, até a 39a semana, fazendo ultrassons semanalmente e até a cada dois dias no final, nada de ele se manifestar: sem contrações, sem dilatações, nada... Aí minha médica resolveu tirar - "se não nasce até a 39a semana, o risco aumenta muito", dizia ela. Eu fui - não ia arriscar meu filho. Se ela dizia haver risco, eu aceitava. (Eu tinha tido um aborto espontâneo um ano e pouco antes, daí o medão. Mais dela do que meu, até. Mas meu também.)
De fato, ao tirarem meu pequenino de lá, parece que havia duas voltas de um cordão enrolado no pescoço e uma cabecinha em retroflexão (será que era esse o termo? o queixo um pouco levantado, o topo da cabeça pra trás), e isso provavelmente justificou, para minha obstetra (que eu amo!), a intuição da cesariana. Se ela disse, como falei, aceitei e respeitei.
Só queria compartilhar com vocês um detalhe. Talvez me achem meio maluca, mas tudo bem. Durante muito tempo, talvez um ano e meio ou dois, eu chorava toda vez que pensava na cesárea. Correu tudo bem, foi ótimo, ele nasceu perfeito, eu fiquei bem depois, a cicatriz é discreta, etc., etc. Mas eu queria ter sentido a dor do parto! Juro! Queria afinal saber se essa tal dor do parto é mesmo a pior que existe, queria sentir na carne mesmo, afinal, o que é ser mulher numa das pouquíssimas coisas que só nós temos o privilégio de sentir!
Durante toda a gestação, trabalhei muito meu corpo e minha cabeça prum parto natural. Fiz yoga, engordei pouco, caminhei, comi bem, preparei os seios pra amamentação (amamentei 1 ano e 8 meses!) - bom, já deu pra ver o quanto eu quis muito meu filho, né? E, sabem?, minha mãe diz assim: "mulher grávida é um horrooooooooooorrrrr, gooooordaaaa demais, disfoooooooorme, horríveeeeeel".... Posso dizer? É nada. Sim, claro, esse é o momento mais animal que temos. Mas que BOM sermos BEM animais de vez em quando, não é não??? E tem coisa mais instintiva, mas animal que parir filho? Ah, eu queria muito ter sentido a dor do parto. Sem protocolo nenhum, ou quase nenhum, apenas aqueles pra minha segurança e pra da minha cria... Só me conformei muito recentemente. :)
Mas também não sou radical pro outro lado não. Acho que segurança é segurança, médico é médico. Porque, sabem?, sabe Karl?, assim como existem os médicos cesaristas, que são capazes de tirar uma (uma?) criança da barriga de uma mãe para poderem ir tranquilos pra qualquer Congresso Nacional de Obstetrícia, e depois largam a criança numa UTI neonatal felizes da vida, tem também os fundamentalistas do politicamente correto que seria o chamado "parto humanizado". Pra estes, só se pode nascer sem anestesia, na banheira, etc. etc. E não importa muito o sofrimento da mãe e/ou da criança. Importa, sim, a fé - nesse caso, a fé na natureza, ou no poder quase demiúrgico dos que "trazem um ser à vida"(?). Mas, convenhamos, ela/eles pode(m) não ser tão sábia(os) todas as vezes. Eu pelo menos acho assim. Confesso que senti muito preconceito da parte dos defensores desse tipo de nascimento, simplesmente porque dizia confiar na minha médica, e que seria uma cesárea, se assim tivesse de ser. Fui grande admiradora da "medicina bicho-grilo" até ter meu filho. Depois dele e da minha mãe doente, passei a admirar a Medicina.
É isso. Desculpem esse comentário tão pessoal. Mas o jeito que eu tinha de falar do assunto era falando de mim...
Na última semana, meio atabalhoadamente, finalmente assisti ao documentário José e Pilar (2010), dirigido por Miguel Gonçalves Mendes e co-produzido pela O2 de Fernando Meirelles.
Há tempos ando atrás dele. Do filme. Aliás, quem me conhece sabe que eu vivo atrás deles, e eles me fogem, ó pá... Perdi a projeção comercial em São Paulo - ir ao cinema hoje em dia me tem sido cada vez mais difícil -, então pedi a uma amiga que mora em Lisboa que o comprasse em DVD e enviasse pra mim por alguém. "Fabi!", ela me disse, "o Miguel vai a São Paulo em novembro, pode te levar o DVD e ainda fazer uma palestra para os seus alunos sobre o filme, o que você acha?" O que eu acho??? Maravilhoso, né? (viram como às vezes vale mesmo a pena esperar que as coisas venham a nós, em vez de ir até elas?... :) )
Pois é. Mas o Miguel não pôde vir... Ainda. E, justamente no dia em que recebo essa notícia, abro o site da Livraria Cultura e lá está ele: o DVD José e Pilar! Lançado no Brasil! Claro que comprei no mesmo minuto...
Já tinha escutado tanta coisa a respeito desse filme.
"Longo demais."
"Saí chorando do cinema."
"Mostra o cotidiano do escritor."
Mas o que mais me chamava a atenção eram as observações sobre Pilar del Río, a mulher de Saramago:
"Fabiana, a Pilar matou o Saramago de trabalhar..."
"Ela muito vaidosa, muito insinuante, querendo aparecer por conta dele"...
"O documentário mexe mesmo, Fabi. E olha que nem sou tão fã assim da Pilar..."
"Tudo bem, ela ajudou muito, mas essa coisa de fazer do Saramago um pop-star..."
E lá fui eu assistir ao filme, com a tal pergunta na cabeça: assassina ou não assassina, essa Pilar? Matou ou não matou?
Gente... Observação no. 1: o filme é lindo!... "Cruel e delicado", como diz o trailer... Imagens super trabalhadas, trilha sonora incrível. Lindo!
Observação no. 2: a certa altura, no lançamento de A viagem do elefante em São Paulo (acho que é deste livro), uma mulher brasileira chega bem perto da mesa em que Saramago está assinando os livros, abaixa-se ao pé do ouvido dele e sussurra: "Eu te amo"... Pois é. Essa podia ser eu! :)
Observação no. 3 (e agora tenho de tomar fôlego): não vou responder à pergunta fatal!!! :)) Não vou dizer se, na minha opinião, Pilar matou ou não matou Saramago de trabalhar!!! :)
Nada disso: vou deixar que vocês assistam ao filme e cheguem às próprias conclusões! Claro! :)
Só vou dizer uma coisinha: o filme é um documentário. Certo? Então, como expectadores de um documentário, vamos até ele buscando uma verdade. Fazemos um pacto de veracidade com o filme, ao assisti-lo. Quem está ali é o Saramago, certo? É a Pilar, certo?
Claro que não!!! É - apenas em parte...
E, nessa transformação de fato em representação, o que mais me chama a atenção, em nós, que a recebemos, é que a leitura que fazemos dela me parece sempre marcada por modelos de representação!
Vejam só: quem classifica o filme de "uma bela história de amor" não estaria vendo nele... uma história de amor?? Quem procura em Pilar, ou em quem quer que seja, um culpado para a morte (trágica, não?!?) do herói (Saramago) não estaria vendo nele... um thriller de mistério, buscando vilões? Ou uma tragédia clássica, com a morte final do protagonista sucumbido por suas próprias escolhas?
Não vou responder aqui ao "matou ou não matou", já disse... Mas... Olhem para o filme com olhos um pouco mais abertos. E talvez vocês consigam chegar a uma resposta só sua e, que, por repetida, talvez possa ser a de muitos. Contada de muitas maneiras. Porque tudo pode ser contado de outro modo.
PS - Miguel: teu trabalho se apossou de mim por vários dias e noites, me tirou o sono, me emocionou às lágrimas. Obrigada por isso.
No último dia 27 de outubro, eu, que quase nunca vejo telejornais, fui surpreendida de TV ligada pela notícia da prisão de 3 alunos no estacionamento da minha Faculdade. Os alunos, segundo a matéria, fumavam maconha quando foram surpreendidos por soldados da PM que patrulhavam o local. Seguiram-se protestos acalorados, o delegado responsável foi chamado, seu carro depredado. Os estudantes gritavam palavras de ordem: "Fora PM do campus!"
"Isso ainda vai dar muita confusão", pensei. Dito e feito. Após invasão do prédio da Administração da FFLCH e do prédio da Reitoria da USP, cerca de 400 policiais efetuaram a desocupação deste último pela manhã do dia 8 de novembro:
"A reintegração de posse da reitoria da USP (Universidade de São Paulo) terminou por volta das 7h20 da manhã desta terça-feira (8). Cerca de 70 pessoas foram detidas e estão seguindo para a 91ª DP. Segundo a informação mais recente da PM, eram 46 homens e 24 mulheres."
Ontem, vinte dias depois, greve de estudantes decretada, cheguei pela manhã para dar aulas para os alunos que quisessem comparecer. Aulas, propriamente, não - queria dar a eles alguma orientação para uma possível avaliação final, organizar a vida até o final do ano, que já está bem próximo. Achei que encontraria uma Faculdade esvaziada, mas calma. Mas o que vi foi bem assustador.
Na porta, um piquete impedia a entrada de alunos. O diretor do meu departamento estava lá, conversando com os grevistas. Foi quase agredido, e ele, que é pequeno e em geral bem contido, alterou-se, falou grosso, discutiu feio. Fiquei sabendo também que, mais cedo, a Diretora da Faculdade tinha estado por ali, tentando negociar com os estudantes em greve. Também se alterou, também foi agredida, com palavras, ironia, acusações. Na minha sala de aula, havia alguns alunos, um pouco perdidos. Entrei, formei um círculo para conversar um pouco com eles, já intuindo que seria impossível qualquer esboço de aula formal naquela circunstância. De quando em quando, passavam estudantes "policiando" os corredores, verificando quem seriam os professores "fura-greve" (e os alunos, claro) e nos olhando feio.
Não vou entrar aqui na discussão fica-PM/sai-PM, greve-apoiada/greve-criticada, fura-greve/grevista, viva-Rodas/morra-Rodas. Mas tenho de dizer que toda essa situação na USP me lembrou Canudos.
Se todos recordam, logo após a proclamação da República, em 1889, criou-se no sertão da Bahia um grupo de pessoas, chefiado por um líder religioso e que recusava aceitar o governo republicano como legítimo. Enviado como repórter do jornal "O Estado de São Paulo" para noticiar a guerra que se sucedeu para abafar o movimento, que só ganhava adeptos, o escritor Euclides da Cunha comentaria:
"O homem e o solo justificam assim e algum modo, sob um ponto de vista geral, a aproximação histórica expressa no título deste artigo. Como na Vendéia o fanatismo religioso que domina as suas almas ingênuas e simples é habilmente aproveitado pelos propagandistas do império.
A mesma coragem bárbara e singular e o mesmo terreno impraticável aliam-se, completam-se. O chouan fervorosamente crente ou o tabaréu fanático, precipitando-se impávido à boca dos canhões que tomam o pulso, patenteiam o mesmo heroísmo mórbido difundido numa agitação desordenada e impulsiva de hipnotizados."
E terminaria com o bordão de impacto que ficou famoso: "A República sairá triunfante desta última prova."(http://tinyurl.com/7mpcrfk)
Sabe-se que saiu mesmo. Com todo o povoado dizimado, cabeças cortadas. Sabe-se também o quanto o republicanismo ferrenho de Euclides saiu abalado com a visão da matança - que ainda não tinha acontecido enquanto ele escrevia os artigos da Vendeia, daí sua adesão "feliz" às tropas do governo no momento.
Mas o que me incomoda realmente nem é tudo isso. No final dos anos 1990, o Prof. Willi Bolle esteve no sertão de Canudos, fazendo pesquisas, e conseguiu entrevistar ainda alguns sobreviventes do massacre, 100 anos depois. Questionado sobre o sentido de Canudos, um deles respondeu ao professor: "Só faltou uma conversa".
Definitivamente: não consigo enxergar certos e errados no que está acontecendo na USP hoje. Melhor: consigo enxergar muitos certos e muitos errados. Mas o que mais me incomoda é a repressão. Não à ocupação da Reitoria, não a algumas práticas dos estudantes. A repressão ampla, geral e irrestrita. A mordaça completa. Ninguém ali pode falar. - Nós - não temos o direito à opinião. Não há democracia real. E se a falta de democracia é exercida sobre os estudantes, ou sobre a administração, ela tem recaído com força, sim, é sobre os professores. Estamos, sim, subalternizados nesse processo, policiados por todos, mas também - e surpreendentemente - por aqueles a quem deveríamos ensinar. Não temos voz. Não temos direito ao gesto sem que sejamos cerceados e, por que não dizer, violentados, física ou moralmente.
Canudos estava certo? As forças de repressão a Canudos estavam certas? Que intenções havia por trás do povoado? Por trás do aparato militar?
Para além da complexidade extrema de todos esse processo, muito mais ampla do que se tem feito acreditar, ainda respondo com a fala do sertanejo - "antes de tudo um forte", segundo Euclides -, tratando do massacre de cerca de 25 mil pessoas: "Só faltou uma conversa".
Compartilhando... Eu, leitor: Desejo que não quer deixar de ser desejo: "Em hebraico, diríamos um 'desejo de Shalom' . O Shalom que normalmente traduzimos por 'paz' significa 'estar inteiro'. Nós não estamos em ...
Já trabalho em sala de aula há
muito, muito tempo (ê, vecchiaia brutta,
diria minha avó…), e não é de agora que os alunos torcem o nariz para tudo o
que se chama “literatura”. “De que vai me servir ler isso?”, perguntam uns.
“Quanto é mesmo que vc ganha, p’sora?”, vêm outros. Há uns dez ou doze anos,
numa das maiores escolas de São Paulo, um adolescente de 16 ou 17 se levantou
no meio de uma aula minha e saiu gritando e batendo a porta atrás: “Você é
louca!!!!! Looooooooucaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!! Acha que não tenho nada mais pra
fazer na vida do que ficar lendo esses livros que você
mandaaaaaaaaaaaaaa!!!...” Surtou, fazer o quê? (será que “literatura” é
sinônimo de “loucura”, ou é só semelhança fonética?...)
Em outras situações, “literatura” é
quase um xingamento, o oposto de pragmatismo, realismo, objetividade,
conhecimento: “o que você está propondo é l-i-t-e-r-a-t-u-r-a! Não tem como
fazer!!”
Desde Baudelaire é assim. Ou talvez
antes. O poeta flanando sem rumo e sem uso pelas ruas de Paris, albatroz
pisoteado por botas imundas, cheirando a peixe, sobre o convés de um navio:
Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.
À peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes [blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.
Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!
Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.
(Charles
Baudelaire, “L’albatros”, in Les Fleurs
du Mal, 1861 – não consegui cortar o texto, tão lindo! Segue inteiro.)
O gauche de Drummond, o “errado assim” de Chico Buarque têm essa
origem – mas isso já é outra história… “Enfermos que voa(á)vam(os)”, vamos
vagando por aí, meio sem rumo, leprosos de uma especie de contágio, os que
escrevem, os que leem, mendigos de um tipo de alimento (ou de reconhecimento)
que raramente ocorre encontrar, até que…
Há uns oito meses mais ou menos,
Karl publicou no Ecce Medicus (www.scienceblogs.com.br/eccemedicus - leitura super
recomendada!) um post intitulado “Vibes Linguísticas”. Por favor, me entendam:
o Ecce Medicus é um blog… científico
(Scienceblogs, remember?...).
O Karl é médico, gente! Então, imaginem a minha surpresa ao ler lá algo assim:
“Devo muito do meu gosto por escrever a esse cara (quem sabe um dia
aprendo, né?). No dia 26 de Dezembro de 2010 ele faria 119 anos. Henry Valentine Miller foi meu companheiro de plantões em clubes. Fazia ‘exame de piscina’. Se
fazia sol, trabalhava muito. Mas, quando chovia, viajava com ele por Paris e
Nova Iorque. Por entre ‘pernas e delícias’, eu, menino nerd e sem dinheiro, fui
aprendendo que só há um meio de sermos
verdadeiramente livres: a literatura.”
“Só há um meio de sermos
verdadeiramente livres”? Vocês são capazes de imaginar meus olhos arregalados e
meu queixo caído, completamente?
Levei uns dias até conseguir me
refazer do susto e “mastigar” todas as palavras do post. Levei meses pensando
nesta resposta, amadurecendo os parágrafos, dormindo e acordando com os pensamentos,
até que, como sempre acontece comigo, que escrevo muito devagar, gestando
frases no silêncio, este texto começou a me incomodar. E, quando incomoda,
quando assombra e retorna, então está na hora de escrever, não tem mais jeito.
Nunca li Miller por inteiro. Li
Anaïs Nin, há muito, muito tempo, pós-adolescente ainda. E fui ler meu primeiro
Miller, O mundo do sexo, no meu
período gestacional-pensamental pós-post do Karl, que diz, entre outras coisas:
“Só há um meio de sermos verdadeiramente livres: a literatura.”
“Quando (e se) transformamos nossa vida
em literatura então, a coisa fica bem mais interessante.”
“Distorção e deformação são inevitáveis no processo de re-viver a nossa
vida. O propósito íntimo de tal desfiguração, obviamente, é captar a verdadeira
realidade das coisas e dos acontecimentos.” (Miller, de O
Mundo do Sexo, citado no post)
“O paradoxo é que, se por um lado,
somos verdade-aditos, sempre em busca do que acreditamos ser a verdade, por
outro, criamos mundos fantasiosos para fugirmos dela.”
E,
por fim, mas não na ordem do post,
“O mundo de Miller é um mundo onde o
sexo tem uma dimensão sacra. Liberdade e criação. A redenção do humano em seu
comportamento sexual.”
Literatura. Verdade. Liberdade.
Criação.
Eu tinha uns 16 anos (quase no tempo
em que os bichos falavam, nossa, to saudosista ultimamente…) quando comecei, no
corredor da minha escola, paulista e tradicional, uma conversa com meu
professor de literatura. Adorava falar com ele. Eu lia doidamente,
apaixonadamente, desde que o mundo era mundo pra mim - influência da minha mãe.
Aos 16, conhecia Drummond, todos os Hermann Hesse traduzidos para o português,
vários Richard Bach, as Pollyannas, todo o Monteiro Lobato infantil, a
mitologia grega, os contos de fadas do Ocidente e do Oriente, Machado de Assis,
Alencar, grandes clássicos da literatura mundial (Os três mosqueteiros, Robinson
Crusoe, a Ilíada e a Odisséia,
O homem da máscara de ferro, A volta ao mundo em oitenta dias, uma
coleção imensa de 50 volumes que ganhei da madrinha), os poetas românticos
brasileiros. Tínhamos em casa um livrão de antologia dos românticos (tínhamos,
não: ele ainda está lá...). Uma das minhas primeiras lembranças literárias é da
minha mãe lendo para mim (teria o quê, 7 anos?), não uma história infantil
antes de dormir, que nada! O que ela me lia era assim:
“Sou bravo, sou forte
Sou filho do Norte
Meu canto de morte
Guerreiros, ouvi!”
É, gente, o “I-Juca-Pirama” do
Gonçalves Dias mesmo. Com direito a explicações: “o índio foi preso por índios
de uma outra tribo, sabe, e tem de fazer como o pai, ser corajoso”… Será que é por isso, Karl, que eu não
choro nos hospitais (“sou bravo, sou forte”, etc....)?
Bom: conversava com meu professor de
literatura, eu dizia, uma das pessoas mais importantes e influentes da minha
vida. Tinha me caído uma ficha assim (e era o que eu perguntava a ele, naquele
dia, com a empáfia meio tímida dos meus 16 anos): “Você não acha que a
literatura é a história do interior do homem? Daquilo que ele sente e pensa,
daquilo que a História não fala?” (talk about “menino(a?) nerd”…)
Literatura e verdade. Não sei, Karl.
Mas acho que já naquela época, tão criança que eu era, já intuía na literatura,
nesses “mundos fantasiosos que criamos” para fugir da verdade, algo muito próximo
da “verdadeira realidade das coisas e dos acontecimentos”. E até hoje acredito
que muitas vezes a ficção faz vislumbrar, muito mais do que o discurso
generalizante e uniformizador da ciência, aspectos, fragmentos de uma verdade
humana, fugaz, caótica e estarrecedora que há poucos outros meios de alcançar.
Isso porque a ficção se debruça sobre o particular, o pequeno, o único, o
próprio. E, nesse próprio e nesse único, há, na verticalidade, um universal que
é difícil definir em palavras e que talvez tenha a ver com o partilhar da
experiência. Paradoxal - acho que sim. Mas a vida é paradoxal, será que não?
Então, talvez não criemos mundos fantasiosos para fugir da verdade, mas para
nos encontrarmos inteiramente e intermitentemente nela? Não sei. É uma pergunta.
E, se conhecer a verdade é uma das maneiras de sermos realmente (mas nunca
completamente) livres, então a literatura talvez seja, sim, um dos poucos
acessos que temos à liberdade (embora não o único), e você tenha, sim, toda a
razão…
Agora, a segunda parte. Miller. O
sexo.
Fui ler Henry Miller ávida de sexo
(uau!!!...). Mas não de qualquer sexo, não. Queria ler lá “o mundo
onde o sexo tem uma dimensão sacra”, “a redenção do humano em seu comportamento
sexual” - “a verdadeira realidade das coisas e dos acontecimentos”, afinal. E,
talvez seja meu desconhecimento de Miller, talvez o fato de não ter lido a
“Crucificação Encarnada”. Mas sabe que eu procurei, procurei, e não vi muito
isso em O mundo do sexo?
Tem
palavrões, sim, muitos! O texto é “forte”, como você me declarou uma vez -
expressão que minha mãe também usaria pra falar de um livro impróprio pra
crianças ou de um filme bem sexualizado (:P). Tipo O último tango em Paris, sabe?, que ela foi ver escondidinha quando
o filme foi lançado com cortes no Brasil: “fooooorteee…”, com aqueles olhos
azuis virados pra cima e as sobrancelhas bem levantadas…
Otto
Maria Carpeaux, crítico literário da maior importância que assina a
Apresentação de O mundo do sexo na
edição da José Olympio, defende ali algumas obras chamadas “pornográficas” de
proibições e de cortes, declarando que Henry Miller não foi um “sedutor
diabólico, mas um apóstolo da liberdade”, porque “a liberdade […] é mais
importante do que a defesa da moralidade de solteironas e de hipócritas”
(Carpeaux, apud Miller: 2007, 16). No
que concordo inteiramente! Mas será que a liberdade mais radical e verdadeira
reside apenas na liberdade de utilizar a língua (no sentido de linguagem, aqui,
veja bem… :-) ) como se bem entende, chamando as coisas por seus nomes
“proibidos”?
Até
certo ponto – e certo tempo – sim, com certeza. Chamar sexo de “foda” e vagina
de “buceta” (me desculpem os leitores, estou citando o livro) ainda choca e faz
corar quando estamos diante de um texto escrito, literário, publicado, “sério”,
e chocava e fazia corar muito mais na época de Miller, estou certa disso.
Conquistar o direito de pronunciar esses e todos os nomes, escrevê-los,
repeti-los, é exercer uma liberdade de expressão sem amarras que cabe a todos
nós. Em alguns contextos, mais ou menos, quer e faz agredir. É também expressar
uma revolta contra o bom-mocismo e a hipocrisia. Mas - seria o suficiente?
E então, a segunda camada de
liberdade. O sexo livre. Muuuuito sexo, muuuuuuitos parceiros(as), quase o
tempo todo. "Império dos sentidos", instinto livre de amarras e de convençōes
- ou contra amarras e convenções:
princípio do prazer amplo, geral e irrestrito. O mundo do sexo é também isso. Conta lá o narrador/pensador de
Miller, nesse livro que é uma mistura (bem resolvida?) de ensaio com narrativa
autobiográfica "ficcional" (não, isso não é uma total inadequação de
termos) que toma como amante uma mulher que não era aquela a quem jurara
"amar para sempre"; que, com a amante, agia "como um maníaco
armado com um machado enferrujado e atacando com ele freneticamente a torto e a
direito"; que, ao voltar do dia em busca de trabalho,
"Lá estava ela, sua buceta, sempre
aberta, sempre à minha espera. Pronta, como uma flor-armadilha, para me engolir
inteiro." (O mundo do sexo, p.
52)
E que
depois a amante se torna esposa. Para o narrador se tornar amante da mãe da
esposa. E das amigas dela. E assim por diante. E sempre mais.
Em 1940, quando o livro foi
escrito, em plena IIa Guerra, isso talvez
pudesse ser considerado novo, polêmico, revolucionário até. Pensem nos
musicais hollywodianos e puritaníssimos da época. Pensem também naquele beijo
tórrido entre Deborah Kerr e Burt Lancaster,
incendiando o preto-e-branco de A um passo da eternidade, de 1953, e enrubescendo as mocinhas. Pensem nos "ohs" e "ahs" escandalizados, nos moralistas de plantão, na caça às bruxas macarthista.Nesse
sentido, sim, talvez Miller fosse um "hippie" classudo e afrancesado avant-la-lettre, mistura de Genet e
Baudelaire com Pasolini, de Monet com Tennessee Williams, e precursor do
Marcuse de Eros e civilização (1a ed.
1955). Nesse livro, praticamente esquecido em nosso tempo de banalização do
eros, o filósofo alemão, "guru" da revolução sexual (ele foi
apropriado assim), defende que, contra a noção freudiana do inevitável conflito
"entre
o princípio de prazer e o princípio de realidade, entre sexualidade e
civilização, milita a ideia do poder unificador e gratificador de Eros, acorrentado e corroído numa
civilização doente. Essa ideia implicaria que o Eros livre não impede duradouras relações sociais civilizadas [e] que repele, apenas, a
organização supra-repressiva das relações sociais, sob um princípio que é a
negação do princípio de prazer". (Marcuse, 1999: 57)
Penso que isso talvez se pareça com
o que declaram/almejam certos trechos mais "filosóficos" do livro de
Miller:
"Admita ou não, o artista é sempre
obcecado com o pensamento de recriar o mundo, a fim de restaurar a inocência do
homem. Ele sabe além do mais, que o homem só pode recuperar sua inocência
reconquistando sua liberdade. Liberdade, aqui, significa a morte do autômato."
(O mundo do sexo, p. 25)
Não
lembra o Marcuse?
E depois:
"Num de seus ensaios, D. H. Lawrence
salientou que havia duas grandes modalidades de vida, a religiosa e a sexual. A
primeira, declarou, tinha precedência sobre a segunda. O sexo era o caminho
menor, dizia. Sempre pensei que só existe um caminho, o caminho da verdade,
levando não à salvação, mas à iluminação. [...]
Parece fora de esquadro para o autor de Trópico de Câncer emitir tais opiniões?
Não se observarmos debaixo da superfície! Apesar de liberalmente forrada de
sexo aquela obra, a preocupação de seu autor não era com sexo, nem com religião,
mas com o problema da auto-libertação." (O mundo do sexo, p. 24-25)
Sexo-liberdade.
Literatura-liberdade. Vamos voltando ao nosso problema do início. Mas... onde a
"verdadeira realidade das coisas
e dos acontecimentos"?
E aí vem
o que mais me incomodou no livro. Tenho percebido, cada vez com mais força
ultimamente, que a essência do que é dito muitas vezes não está no que é dito, mas na formacomo é dito. Vocês
não acham isso? Muito mais que no conteúdo: na estrutura (corro o risco de ser - erroneamente - tachada de
"estruturalista", mas tudo bem).
Então: é
exatamente nisso que este livro de Miller é... estranho. Ele vai bem enquanto
filosofa, acho. Defende bem - poética, lindamente - seus pontos de vista, e para mim é muito fácil
concordar com alguns deles. Mas as duas "vozes" que falam ali - a que
pensa e a que conta - não conversam...
entre si!
Por um
lado, temos um pensador que afirma:
"Podemos
viver com alegria - devemos! - em meio a um mundo povoado de criaturas livres e
sofredoras. Que outro mundo existe em que podemos gozar a vida? Eu sei isso,
que não mais representarei pelo ato de representar, nem agirei só para me
mostrar ativo." (O mundo do sexo,
100-1)
Por
outro, um narrador-personagem que diz (sobre seu período parisiense, se não me
engano):
Através de um inverno interminável eu dormi no
fundo do poço profundo que cavara para mim mesmo. Dormi como um urso. E no meu
sono era o problema do mundo que povoava meus sonhos.
Das janelas dos fundos do apartamento que ocupávamos,
minha amante e eu, eu podia ver o quarto de dormir daquela que eu jurei amar
para sempre. Era casada e tinha uma criança. Na época eu ignorava o fato de que
ela morava nesta casa do outro lado do pátio; nunca sonhei que era dela a
silhueta que enchia meus olhos e me deixava na mais negra infelicidade. Se
apenas eu tivesse sabido, como ficaria grato de me sentar para sempre diante da
janela, sim, até mesmo no esterco e na sujeira. [...]
Arrastando-me para a cama com a outra, eu
passava horas terríveis pensando naquela que estava perdida para mim. Exausto,
enfiava-me de novo no fundo do meu poço. Que forma abominável de suicídio! Não
só eu me destruía e ao amor que me devorava, eu destruía tudo que encontrava
pelo caminho, incluindo aquela que se agarrava desesperadamente a mim no sono.
Eu tinha de aniquilar o mundo que fizera de mim sua vítima." (O mundo do sexo, 50/2)
Esperem aí
um pouquinho: "fundo do poço profundo que cavara para mim mesmo"?
"Problema do mundo"? "Arrastando-me para a cama"?
"Horas terríveis"? "Forma abominável de suicídio"? Uai, mas
onde está aqui "aquele que não mais representa pelo ato de
representar"? Que pode dormir com a mãe, com um animal ou com a própria
filha, satisfazendo seu desejo sem culpa (O
mundo do sexo, 102)? Aquele para quem o sexo não é o sexo, mas a
"auto-libertação"? Se assim fosse, por que sofrer com o sexo pelo
sexo? Por que sofrer por "aquela que estava perdida para mim" e,
sofrendo, também perder-se? Onde a liberdade? Onde a "verdadeira realidade
das coisas e dos acontecimentos"? Faça o que eu digo, não faça o que eu faço?
Por que é que, nesse universo de linguagem que é O mundo do sexo, narrador e pensador, em sendo o mesmo, são tão
outros? Que estrutura mais Dr. Jackyll e Mr. Hide é essa, em que aquele que age não é o mesmo que pensa, sendo os dois a mesma voz?
(Fiquei
meio brava com isso. Além de tudo, tem a coisa de ficar sexualmente excitado
com qualquer mulher chorando atrás da janela: "Uma mulher soluçando no
escuro em geral significa uma mulher implorando por amor" (O mundo do sexo, 108). É possível
isso????????? Juro que podia ter dormido todos estes meses sem essa, mas isso já
é outro assunto...)
Então:
uso (libertário?) do calão, sim. Pensamento que encaminha filosoficamente a
relação entre sexo e liberdade, sim. Mas onde o transformar a literatura em
vida, a vida em literatura? Do ponto de vista ficcional - e, pensando que em
Miller a ficção é tida como autobiográfica -, não vi muito disso não... (Estou
querendo muito de um autor do início do século passado? Claro que sim! Sou
exigente mesmo :-) ) E, aí, como amarrar todas essas pontas?
Vou procurar
fazer isso com uma espécie de confissão pessoal. Corajosa, viu?, e que é a
seguinte: não sou, nunca fui uma pessoa de muitos parceiros (sexualmente
falando, mesmo), e estou muuuuuuuuuuuuito, mas muuuuuuito longe do "paraíso" (??)
chamado por Miller de "A Terra da Foda"... Nunca fui assim. Mas tenho
uma opinião sobre sexo que talvez valha a pena compartilhar aqui e faça com que
a gente consiga vislumbrar a possível relação disso tudo.
Bom, então
aí vai: não todo, e não sempre. Mas sexo, eu acho, é encontro. Como muitas outras coisas na vida: um médico consultando
um paciente. Um professor percebendo um brilho novo no olho de um aluno. Um
abraço entre mãe e filho. Um leitor e um texto. Um homem e uma mulher (dois
homens, duas mulheres, o gênero aqui não importa...).
Só que,
nesse encontro que é o sexo - e isso já não é tão comum de acontecer -, os
participantes, literalmente, se despem
(não sempre, ta bom, há histórias bem bizarras a respeito. Mas na maioria das
vezes. Pode ser?) Então. Sempre tive a impressão de que, quando acontece, esse
despir-se é total - mesmo quando não há muita consciência disso. Não existe
muita dissimulação possível no sexo - embora mitologicamente se diga que sim, e
vários(as) tentem (dizem até que é artimanha feminina)... Na minha experiência,
ali, não é permitido fingir: paixão, entrega, cansaço, desinteresse, afeto,
desamor, narcisismo, culpa, pura atração, descaso, amor imenso. Está tudo ali, e é o que é. Por isso é que
talvez não haja bons amantes e maus amantes. Homens e mulheres sensuais ou não
sensuais. No limite, o belo e o feio. Existe, sim, aquilo que há entre os
parceiros. Existe, sim, a natureza da
relação. E, ali, feia ou bonita, é ela que se desnuda. Inteira. E, de
alguma forma, a própria natureza dos parceiros, já que é ela, uma parte dela,
aquilo que se relaciona; aquilo que,
por inteiro, mas nunca totalmente, é ativado nesse encontro: às vezes o melhor de mim. Às vezes não.
E, quando
é o melhor que ali se ativa, como dizer?, há algo do profundo de uma entrega em
que o que busco não é o eu, mas o outro: aquilo que eu sou, e me alimenta;
aquilo que eu não sou, e me completa. Não o eu - o outro. Não uma "auto-libertação", ou um autoconhecimento,
como em Miller; mas um heteroconhecimento,
uma heterolibertação que, no contraste
e no confronto com o outro, é, sem nenhuma sombra de dúvida, um conhecimento e
uma libertação do mais profundo de mim.
Sem
sombra de dúvida mesmo - porque, nesse processo, não há sombra possível.... Há
um trecho lindo de AJangada de Pedra, do José Saramago, em
que dois personagens finalmente se unem (sexualmente falando) e, do alto do monte próximo,
sob o luar, um terceiro observa a casa no vale que os abrigava: "Parecia
haver sobre ela uma aura, um fulgor sem brilho, uma espécie de luz não
luminosa" (Saramago, 1997: 185)... Há, nesse encontro, algo que se aproxima da verdade. De alguma verdade, precária
e fugaz. Nada científica, com certeza.
E talvez
seja nisso, Karl, que literatura e sexo se aproximem pra mim, e que ambos se
aproximem da... verdade? Literatura também é encontro... Uma forma muito particular e especial de encontro em
que se partilham experiências muito, muito vivas e, nessa relação - às vezes no
próprio corpodamentira - algumas
verdades se constroem. Será que é assim? Porque, pensando bem, quem é que disse
que as histórias "verídicas" que contamos todos os dias são, assim...
verídicas? Paradoxal, será? :-)
E,
pensando ainda melhor, talvez não seja à toa que o texto bíblico - o bíblico! -
una, justamente, Verbo, Sexo e Verdade. Afinal, qual foi mesmo a história do
pecado de Adão e Eva? Comeram do fruto da árvore do conhecimento e se
descobriram nus? Ou se descobriram nus e comeram do fruto da árvore do
conhecimento?
"Sereis
como deuses", disse a Serpente. Literatura, verdade, liberdade, criação.
Para mim, não tem mesmo jeito: a verdade - sartrianamente infernal que seja -
está no outro, seja ele livro ou
gente, acho que é isso. É lá que vive aquilo de mim que eu desconheço. E, nesse
encontro - que pode nunca acontecer!,
ou somente uma ou duas vezes na vida, quem sabe, ou muitas vezes - refaz-se
toda a existência de todos os tempos possíveis e fulgura uma verdade. Nesse momento, sim, Karl, sumus
sicut dii: somos como deuses. E depois não mais. E talvez mais uma vez, depois. E fim. :-)
(Peço desculpas por ter
demorado tanto tempo em escrever. Nem sei se consegui me fazer assim tão
clara... Nem sempre é fácil dizer certas coisas.)
Os editores da Crisálida fizeram questão de colocar o nome de cada autor no convite do lançamento!...
Super gentil, mas são quase noventa autores! Trabalho de Hércules!! :)
De qualquer modo, estou feliz de ver a "cria" lá, no livro.
Vou ficar mais se puder ver vocês lá! Uau!! Pelo menos vou poder me esconder no meio de todos e enganar a timidez!! :)
é Doutora em Letras e crítica literária. Tem vários artigos, traduções e livros publicados. Como professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo desde 2004, estudou as obras de Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa e de autores africanos de língua portuguesa como Luandino Vieira e Pepetela. Publicou Escrito nas Estrelas (Editora Rocco, 2010), em parceria com Horácio Tackanoo, livro do qual assina o texto. Atualmente, pesquisa o cinema africano de Língua Portuguesa e o desafio da Literatura e Medicina. É também mãe do Ricardo -- um mini "louco por livros - e filmes! -" de 8 anos...